sábado, 31 de outubro de 2026

POR QUE QUEM CARREGA A CAMPANHA NAS COSTAS É ESQUECIDO APÓS A VITÓRIA?

 


Acompanho eleições municipais há bastante tempo em alguns municípios do Pará e isso me permite discorrer sobre o tema. A engrenagem das campanhas políticas em alguns municípios repete um ciclo cruel: lideranças gastam a sola do sapato nas ruas, mas quem assume as secretarias e cargos de confiança são os tecnocratas, os indicados corporativos e os “herdeiros” do poder econômico.

Durante o período de campanha, o candidato ao cargo majoritário municipal  se cerca de quem realmente tem força popular: líderes comunitários, sindicalistas, presidentes de associações esportivas, presidentes de centros comunitários, presidentes de clubes e genuínos formadores de opinião.

Essas pessoas, movidas pela esperança de mudança e pela promessa implícita (ou explícita) de compor a futura gestão, colocam o bloco na rua. São elas que conhecem o eleitor pelo nome, que defendem o candidato nos momentos de crise e que gastam o latim – e a sola do sapato – para conseguir votos. Elas possuem o que nenhum marqueteiro consegue comprar: capacidade de interlocução com a sociedade.

Porém, o dia seguinte à posse revela uma realidade amarga. Assim que as urnas são apuradas, o “blindado” gabinete do prefeito eleito sofre uma metamorfose jurídica e corporativa.

A DANÇA DOS CARGOS: O SUMIÇO DOS MILITANTES E A ASCENSÃO DOS INVISÍVEIS

O que se vê na distribuição de cargos de confiança (os chamados DAS ou secretarias) é um verdadeiro balde de água fria em quem suou a camisa na campanha:

ü  Os técnicos de gabinete: Cargos estratégicos passam a ser ocupados por pessoas que sequer saíram às ruas atrás de um único voto.

 

ü  O “QI” (Quem indiquei) CORPORATIVO: Vagas de assessoria passam a ser distribuídas para filhos de gerentes de empresas, parentes de grandes empresários ou apadrinhados políticos que nunca dialogaram com uma comunidade e sequer conseguiram um único voto.

 

ü  O isolamento do gestor: Aquelas lideranças que antes tinham o WhatsApp direto do candidato agora encontram uma barreira intransponível de secretários, chefes de gabinetes, vereadores e agendas permanentemente lotadas.

 

BANCOS E EMPRESAS NA FRENTE DO POVO:

A explicação para esse fenômeno não está na falta de gratidão pessoal, mas sim na lógica do poder institucionalizado. O candidato se elege com o voto do povo e o suor das lideranças, mas opta por governar de braços dados com pessoas jurídicas como, por exemplo, bancos, cooperativas de crédito e grandes empresas.

Para o gestor público, o apoio do poder econômico garante governabilidade, atração de investimentos oficiais e facilidades burocráticas. Em contrapartida, as demandas das lideranças comunitárias – que geralmente envolvem serviços públicos na ponta, assistência social e diálogo constante – passam a ser vistas como “custo político” ou “pressão dos apoiadores para obtenção de vantagens pessoais.

O PREÇO DO ESQUECIMENTO:

Essa dinâmica cria um abismo perigoso entre a prefeitura e a realidade das ruas. Ao preterir quem tem sensibilidade social e capacidade de interlocução para colocar nos cargos pessoas sem qualquer vivência comunitária, o prefeito eleito começa a errar no básico: A COMUNICAÇÃO COM O CIDADÃO COMUM.

O resultado de governar prioritariamente para o CNPJ e esquecer o CPF de quem o ajudou a chegar ao poder costuma aparecer quatro anos depois. Afinal, bancos, empresa e cooperativas de credito não têm o título de eleitor. quem vota, cobra e decide o futuro da cidade continua sendo o cidadão da rua.

 

 

Um comentário:

Anônimo disse...

Exatamente assim meu nobre!